quinta-feira, 29 de outubro de 2009

DISSIPADO-SE EM SOLIDÕES



Quando pensei em escrever um poema sobre o deserto, nunca consegui entender o porquê de tal vontade.
Muitas vezes peguei a esferográfica para delinear suas curvas através das minhas palavras, mas quando me via lá estava eu, perdida na sua secura, no seu cansaço, na sua sede, nas suas miragens. Quantas vezes senti a minha garganta arder, meus olhos secos e cheios de areia quererem lágrima.
Experimentei a fúria do seu calor nos calos dos meus pés, quantas vezes pensando no deserto, desejei ser um manancial para os pobres viventes que nele habitam.
Uma sombra de nuvem para os que se molham de sol.
Uma súplica para os desabrigados de esperança.
O deserto é um lugar que clama por vida.
Os olhos do deserto sentem fome.
Procurei compreender quão grandemente era a minha dedicação por esse lugar tão repleto de solidões e percebi que, ele repousa dentro de mim.
E no deserto da minha solidão, o vento varre as dunas dos meus sonhos e tudo é pó.
Sou caravana carregada de ilusão.
Na noite que há em mim, é campo florido nos meus sonhos.
O céu cheio de estrelas abriga o frio da noite...
Tudo é inóspito, mas, existe vida.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CHORANDO UMA PAISAGEM - inverno o ano inteiro


A moça chorou.
Mais parecia uma flor secando ao sol do que pássaro voando.
Caçador chegou e pá!
Lá vem ela em queda livre.
A feriu bem no peito, nunca vi um tiro tão certeiro.
Mas ela pensara: - Não chegarei a morrer.
Pois não viu nenhuma gota de sangue cair no chão.
Caçador, homem ruim, nem fez os primeiros socorros.
No chão a deixou.
Coitada!
Morreu sem saber que a sua dor era de amor.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

UM POEMA PARA OS TEUS LÁBIOS



Quero teus lábios nos meus.
Assim mesmo, com ponto final!
Pra que persuadir-me?
Anseio mesmo o néctar do teu beijo como beija-flor anseia flor em pleno verão.
Quero a tua pele suave como pétala deslizando na superfície da minha.
A umidade dos teus lábios, salvação da minha pele que se faz em chama.
Como desejo de fruta madura, sinto o teu gosto.
Tua boca é um fruto para os meus desejos.
Teu beijo.
Ensaio para os meus pecados.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O SEGREDO DAS CORES


O segredo das cores quando se contempla um pôr-do-sol é o de um adeus que se anuncia.
Acinzentado é a cor das palavras não ditas de um olhar abandonado.
Negra é uma noite ao relento para um coração que chora.
Lembro-me de um olhar fugindo de casa, que de tão perdido não tinha cor.
Para uma noite sem sonhos, deixo a ressaca das lágrimas que na manhã se transformam em orvalho com cheiro de saudade.
Uma procura de sonhos é um aroma de jardim no cheiro da moça.
Azul é o amor que se descobre, emergindo como fonte em terra desabitada.
E o olhar contemplador do pôr-do-sol agora é de pássaro encontrando o caminho de casa.

domingo, 20 de setembro de 2009

ESCUPINDO A TRISTEZA

 Eu queria escrever um poema escuro como a minha tristeza, mais que nele, se pudesse ouvir o cair das lágrimas.
Um poema que não se enxergasse as letras, mais que nele se pudesse ver as preces para o meu dia sem glória.
Um poema forte como a dor.
Um poema sem palavras mais com olhos de fome.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Inquietações da alma – Buscando existir

Eu queria mesmo era a tua biografia escrita em minha pele.
Mas o que tenho são os teus rascunhos indecifráveis.
Contento-me em esperar.
Mesmo que tê-lo por completo, seja a minha maior ilusão...
A nudez da alma quando se necessita de um corpo, é como fome. Uma procura intensa do que se anseia mesmo quando o ser amado já é o entardecer quando o que almejamos é o sol da manhã.
Quem sabe um deserto de solidões inundadas pela sede do amor.
Uma precisão de calor em terra fria.
Um mendigar de carinho, loucura...
Como se não bastasse, tu me querias assim...
Assim, nua.
Assim, liberta.
Despida de roupas e agasalhada de sensações.
Percorrendo a natureza da tua pele, como rio explorando territórios, sendo eu tão assim, tão instante, tão devotada aos teus caprichos. Obediente, pouco me importando quem era eu, e o que tu eras naquele instante tão precário de lucidez e tão repleto de pecado.
Não foi por pecado que eu obedeci, te quis porque sei que por ti eu quis acreditar que o bordado da minha vida teria a paisagem e o cheiro de uma tarde de verão chuvosa.
Por isso eu fui a embriaguez daquelas noites com gosto de vinho e fumaça.
E mais que tudo; presente.


sexta-feira, 31 de julho de 2009

BRINCANDO COM A INOCÊNCIA DE SER FELIZ - para quem vive em plenitude

Acho que ele quis dizer que queria que eu fosse a casinha-de-campo dele, mais não sei se quero, acho que não tenho cara-de-casa, e se fosse queria uma varanda e uma rede para ser o meu sorriso.
Acho que penso assim porque ele me chama de meu pezim de alecrim e também de minha flor de maracujá do alto serra.
Dizem que alecrim é bom pra dor e tem gente que cria um no quintal, é bem cheirosinho também, a flor de maracujá é bem bonita mais eu nunca vi uma lá no alto da serra, lá ela deve ter uma beleza mais alta brincando com o vento; minha avó disse que quando o lugar é alto o vento sopra mais forte, coitadinha de mim ser flor lá, só devo viver de cabelo assanhado...
Ele gosta de dizer coisas comigo, fico feliz com essas coisas porque sinto vontade de voar como aqueles desenhos bem animados...
Queria ser criança pra poder desenhar nos dois de verdade numa folha de papel e deixar bem colorida como a felicidade...
Fico me perguntando: Será que amar é assim?
Outro dia levei um susto bem grandão, mas não foi com monstro, quase morro do coração! Deve ser bom morrer de coração... Deve ter gosto...
Ele diz que estou lá no coração, mais acho muito longe para ir a pé, vou pegar um táxi.
Mais o susto foi quando ele falou num negócio chamado de ALMA e disse que eu era o BÁLSAMO da sua, fiquei arrepiada porque essas coisas não pode falar alto porque atrai. Não gosto de tomar coisa forte, dipirona sem açúcar é o pior que tem... Prefiro ficar doente mesmo, dói mais não amarga...
Pensar nessas coisas não gosto porque já ouvi dizer que amor mata gente e minha mãe disse pra mim ficar longe de estranhos quando eu era pequena.
Agora já to crescendo...
Parece que tudo vai ficando diferente e eu não entendia porque as lagartas eram borboletas por dentro...

terça-feira, 16 de junho de 2009

QUANDO SE MORRE UM AMOR - ou para um beija-flor,a triste partida da primavera



Não foi como esperara, o dia se fez chuvoso mais, mesmo assim, as bandeirinhas e os balões que enfeitavam o céu deixaram a tarde com cheiro de sonho. A moça que estava perdidamente encantada com a felicidade e delicadeza que aquele lugar lhe trouxera acreditou que seria tudo perfeito, a ansiedade fervia nas suas veias e procurava o rosto dele em cada pessoa, o que mais queria era encontrá-lo.
Ela sonhou, e acreditou que além das tardes encantadas de versos e embriaguez, seu amor também viria encontrá-la, o amor esperado a tanto. Aconteceu, ao vê-lo pensou que morreria de tanto fascínio, mas, o reencontro não foi como desejara, não ouviu da voz do amado o que tanto necessitava, não teve o beijo tão esperado, o abraço dele não veio ao encontro de seus braços, não o abraço que ansiava... E as suas tardes enfeitadas de cores e sonhos se fizeram em preto e branco e como as nuvens que cobriam o céu agora negro, a sua alma chorou de tristeza, mas mesmo assim a moça vivia intensamente e, quanto aos versos e doses tornaram-se mais perenes e intensos em sua vida. Todas as noites ao amanhecer a moça encontrava-se ressacada, ela e a solidão da sua vida.
O amado, em outros braços, parecia espinho encravado em seu peito, a pobre da moça a chorar por dentro e encenar um riso inebriante por fora, como uma máscara teatral que não se sabe a expressão de quem a usa. Ela sentiu frio mais que nunca naqueles dias tão tristes, sua alma era uma mendiga disfarçada e seus olhos pouco conseguiam fingir o seu anseio, a moça apenas em pensamento, despediu-se do amado pela última vez com um gosto de tristeza nos lábios e partiu novamente para a sua vida que, agora sem sonhos tornou-se melancolia...
Uma flor no fim da primavera dissipando-se...