sábado, 28 de maio de 2011

SEM CONTORNO DE SOMBRA



Ela passou vários dias desabitados, com a mente vazia.
Estava viva como uma flor no alto da montanha, e não sabia como expressar os segredos que se escondiam no seu âmago.
Ela sentia o cheiro dos vinhedos sem nunca tê-los visto.
 Sentia gosto do vento que seus cabelos saboreavam.
Costumava se perder no tempo.
Muitas vezes estava nas suas lembranças passadas como se ainda estivessem vivas  no tempo presente, e a moça pensava: vivo no meu principio e nele não existe passado.
Brinco de mãos dadas com o tempo.
Os eternos olhos infantis não querem chorar. Ainda não.
Quando manhã ela ao acordar não se transpassava da noite para dia, o sol brilhava e ela procurava a noite na claridade.
Pra ela era não era difícil, fechava os olhos e a noite voltava repleta de ventos e estrelas.
Ela brincava com esse tempo de dia e noite.
Todo o escuro e claridade, para ela, não passava de uma sombra.
Talvez seja somente a sua sombra de diversos ângulos do universo.
A sombra de si mesma perdida em um labirinto de sonhos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ENTREGA PARA O SR. LONGÍNQUO – NÃO PLANTE SEM CHUVA


Na ausência da ave os abutres invadiram o refúgio e beberam os seus ovos, assim para vida daquele pássaro voar e brincar com o céu não fazia mais sentido algum.
O ninho estava abandonado.
O tempo estava indeciso naquele fim de tarde quando ela regressava pra casa.
No caminho de volta, os seus pés dividiam espaço com o vento leve e pequeno que varria algumas folhas que a figueira deixara escapar, penetrava também nos longos cabelos que caiam nos seus delicados ombros.
 A sombra de uma nuvem serviu de guarda-sol para ela e o aroma de chuva escapava das frestas do fim de tarde, provocando arrepios nos galhos umedecidos de sol das árvores.
 Mais uma vez o tempo escorregava junto ao dia, e ela lembrou que foi em um dia desses que ele se despediu da sua vida...
Momentaneamente se lembrou da solidão que carregava dentro, presa no seu ventre como um feto ganhando vida com o passar dias.
No vai e vem dessas lembranças ela organizava sempre a fuga para não sofrer, não levantar a poeira da mobília já abandonada.
À noite esses pensamentos a convidava para fugir, como vento forte querendo arrancar o barco do porto, mais ela sempre se prendia ao ancoradouro da sua vida com  
medo das tempestades que poderiam se formar no horizonte.
Mas o lugar existia e ela bem sabia, estava escondido no aconchego daqueles braços já não mais devotados a ela.
Isso era a dor da ferida aberta.
Ela não sabia se era sonho a paisagem, mais era longínquo o azul daquele mar.
Aquele mar que a inebriava de tanto amar.
Mais era uma lembrança e já era noite.
 


quinta-feira, 28 de abril de 2011

PARA O SR. LONGÍNQUO EM UMA NOSTALGICA NOITE DE CARNAVAL – desculpe a demora



Já era alta noite de madrugada e os foliões já não sabiam o que era alegria ou tristeza, era terça-feira de carnaval e as cinzas da quarta-feira já começavam a se espalhar pelo ar repleto de embriaguez.
No meu peito a quarta-feira já existia desde os primeiros confetes jogados ao ar, desde os primeiros goles alcoólicos, desde os primeiros ecos de musica, desde os primeiros sinais de angústia em meu peito.
Nada foi tão triste como voltar àquela folia e não encontrar em sorriso algum o que me bastasse, a alegria que me suprisse.
Tudo parecia tão festivo mais eu estava surda àquela música, como se o tempo estivesse contido e não passasse por mim.
Era alma e corpo separados em tempo e lugares diferentes como quando sonhamos.
Desculpe Sr. Longínquo mais é que a sua falta me traz uma inspiração que rasga a pele, preenche as artérias e quando escrevo isso o fôlego também me falta, o sangue me falta e você me falta.
Tenho pensamentos, mas não tenho mãos para escrever.
Posso gritar, mas o eco da minha voz se perderá no vácuo do passado e você não me ouvirá...
Meus dias vivem presos nesse romance sem fim escrito na areia da praia.
E as ondas no seu vai-e-vem levam todos os dias os escritos e as palavras se perdem no fundo do oceano. E o mar dos meus olhos brinca de transbordar em cachoeira face abaixo.
E quando tudo isso passa ainda ouço uma goteira caindo do telhado lá fora.
Talvez ainda chova hoje.  








sexta-feira, 1 de abril de 2011

DUALIDADE DE SILÊNCIOS



 Pode se acender o escuro apagando uma vela.
A vela se esquece de si, e se deixar queimar, desfalecendo em calor e nostálgica claridade.
Quando a dor vem, atinge o coração retido no silêncio da busca, da solidão, da ânsia perdida no labirinto da noite.
O tempo é uma areia movediça, repleta de dias tênues e refinados de paisagens sugando tudo que temos, tudo que somos, tudo que procuramos.
Amar é remo em águas calmas.
Chorar é tempestade.
Despedida é falta de terra firme para os olhos sonhadores que voam.
  Só se sossega uma alma no refúgio dos braços.
Coração e oceano se alimentam de rios viajantes de terras remotas.
Fazer um poema é dar vida há muitas almas que dormem dentro do silêncio de nós.
Somente voz e silêncio perdido no meio do caminho.

quinta-feira, 24 de março de 2011

MULTIPLICANDO-SE EM SONHO E REALIDADE



De repente ele saiu do meu sonho e descortinou minha vida como se fosse um mensageiro há dizer coisas das quais eu jamais imaginava.
Era um dia chuvoso cheirando a nostalgia.
Mais ele apareceu e sorriu pra mim como se fosse um raio de sol se favorecendo do descuido das nuvens para fugir pra terra.
Era um sonho acordando, tocando na manhã e adornando os seus primeiros passos.
Vê-lo, foi como ver o mar pela primeira vez.
Encanto se unificando à paixão.
Já não era mais ele naquela fotografia já desnuda pelos meus olhos que, tantas vezes, contemplaram aquela face como se fosse um paraíso onde os meus desejos estavam guardados.
Já era ele de carne e osso, e meus olhos se encheram de broto com os primeiros sinais de chuva.
Como se o filme em preto e branco estivesse ganhando cores.
Foi como se o sonho pudesse tocar no real.
Só depois do vendaval saberemos quão forte é a roseira.
 O barulho anuncia a sua chegada, é o vento entrando pela casa  bagunçando meus cabelos e puxando na minha saia parecendo travessura  gente de pouca idade, isso é apenas um recado de como eu devo ornamentar a casa para uma chegada.

quarta-feira, 16 de março de 2011

PINTANDO UM QUADRO DENTRO DA ALMA



Há uma cruz na minha parede.
Também há quadros que parecem pensativos dentro de sua paisagem, taciturnos.
Há flores, pedras e abraços por todo canto da sala, numa pintura feita com dedos e ilusões.
Porém, viajo no que existe inacabado dentro da moldura de um deles.
 E vejo um velho sentado na soleira de sua porta a esperar pelo que lhe resta.
 Seu corpo padece, sua alma naufraga, seus olhos já arrasados fitam o pouco do azul do horizonte quase descolorido pela fraca visão.
Os dias ofuscados existem agora em cima de restos do passado.
Fortes dores o carregam para um abismo desconhecido.
Suas feridas abertas ao relento doem, seus olhos choram ao ver que a sua sombra é composta de solidão.
Tudo partiu: seus amores, suas aventuras da mocidade, seus amigos, seus poemas, o cheiro de infância, até suas canções tornaram-se composições tristes.
O velho ver a janela do tempo se fechar, nos seus braços já não guarda mais um cheiro da vida que guardava quando criança.
O cansaço da vida deixou seus olhos fundos.
As enxurradas de lágrimas deixaram o seu fôlego pequeno.
 E o espelho do tempo vai se ofuscado lentamente...
A vida e suas dualidades acontecendo em uma coisa chamada instante.

quarta-feira, 2 de março de 2011

SEDE DE EXISTIR DENTRO




Aconteceu incessantemente como fogo árduo penetrando em uma mata virgem.
Sorrateiramente o vento conduzia esse fogo como se fosse um pastor conduzindo seu rebanho de ovelhas.
Que fogo seria esse?
As árvores estavam afoitas, tempestade premunida.
As sementes viviam no sentir do seu princípio fecundado.
Existia uma lembrança frondosa do passado, de uma coisa vinda do início dos tempos e que não tinha explicação.
Um ardor também existiu no seu âmago e ela chorou espontaneamente.
Era o antigo vulcão adormecido querendo acordar, mais ela não sabia se isso era bom, só estava desértica e queria chuva.
Uma sede estranha tomava sua garganta como cachoeira que pára de jorrar.
E em um êxtase de chama, num múltiplo orgasmo de ardor, o vulcão já era erupção dentro da sua geografia.
E a terreno do seu corpo em metamorfose, conheceu seu princípio e sentiu um estranho prazer.
Ela apreciou a origem do embrião que pulsava dentro de si, dentro da composição de um néctar de nós, e que florescia em chama.
As nuvens choraram sem conhecer tal motivo, também queriam amar aquela paisagem.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

AINDA HAVERA O ENCANTO GUARDADO



 Permaneci ausente por algum tempo, quando voltei já não era mais meu tempo, já não era mais a minha casa com a mesa rodeada de pessoas.
Quando voltei os moleques travessos da minha rua já não quebravam mais as janelas das casas jogando bola.
Quando voltei o vestido rodado de Aninha já não lhe cabia, por conta dos seus seios que cresciam. Era natal e todos, assim como eu, guardavam a solidão da vida que passou, de tudo que não voltará mais. O natal é triste na sua poesia cheia de luz , guardando sempre a lembrança da metamorfose que somos.
Como será triste para o Papai Noel quando o natal acaba, sem luzes festivas, sem presentes para entregar, sem pessoas a lhe confessarem seus desejos, sem o seu existir para os olhos esperançosos das crianças.
Era natal, mesmo triste aqui dentro, era natal.
E quando voltei, o mundo das minhas alegrias se tornara uma terra acidentada, como se estivesse sido atacada por um exército de iconoclastas. O fogo naquela noite ardia em saudade, saudade de abraços, de sorrisos, de mãos dadas, de um brinde as coisas eternas.
Voltei e não encontrei o berço dos meus acalentos, das minhas ilusões de outrora.
Era natal, e nem sequer encontrei a menina que me ofertava cartões com palavras de carinho todos os anos nas épocas natalinas, eu acreditava nos seus olhos de eternidade.
Mas o natal chegou e a menina não apareceu.
Eu, chorei e desfiz as malas, qualquer lugar para mim agora servia.